• Desafios da Criação

Percebendo o ritmo: A Influência da música

De que maneira podemos facilitar uma compreensão?

Para nos comunicar precisamos nos afinar, tocar no mesmo ritmo, no mesmo tom. Precisamos estar em harmonia, como uma boa orquestra. Mas é claro, é sempre mais fácil na teoria do que na prática. Como se comunicar com alguém que aparentemente possui uma forma de comunicação muito diferente do que estamos acostumados?

Percebemos o mundo e nos comunicamos através de todos os nossos sentidos mas, dentro de nossa sociedade, muitas vezes, nos preocupamos mais com a comunicação verbal, com palavras faladas ou escritas. É natural, essa talvez seja nossa linguagem mais clara, ou pelo menos, a mais racional. No entanto, nossa comunicação vai desde o olhar até os sons que captamos ou as formas que gesticulamos ou nos tocamos.

Nas redes sociais, é fácil ver o quanto uma imagem nos chama a atenção. Em muitos casos é comum as pessoas não lerem todo o texto que acompanha a imagem e sim ficar questionando, sentindo e refletindo as sensações e informações que a figura transmitiu.

Pesquisas mostram quanto o cérebro autista é visual. Todos nós somos fortemente visuais. A imagem é algo muito forte, mas vamos deixar a imagem e todo esse funcionamento e diferenças para um outro momento…

Enquanto você lê este texto outros sentidos também estão te conectando com o mundo a sua volta, o som é um deles. O barulho de algo que vem da rua, uma música que alguém está ouvindo ao seu lado ou algum ruído que pode estar te incomodando e atrapalhando sua concentração para esta leitura.

Os autistas possuem uma sensibilidade muito grande por conta de ficarem com o cérebro “ligado” em muitos estímulos/assuntos ao mesmo tempo. É difícil, para muitos deles, focar em uma ação única sem se desligar de outra, por isso é comum ver o quanto um ambiente de show ou lugar com som alto os descontrola (Confesso que eu também tenho muita dificuldade em ambientes assim). Sem contar o fato de que o som é “espacial”. Ele vibra no corpo como um todo e está no ambiente sem que você consiga vê-lo. Isso causa um desconforto. Uma das coisas que percebemos que acalmava a Marina nessas situações era mostrar onde estava a caixa de som. Assim ela sabia de onde o som estava vindo e isso a acalmava de certa forma. Por um tempo, ela ficou com essa atitude. Quando colocávamos música em casa, ela se desesperava procurando de onde vinha o som e quando encontrava a fonte, ficava ao lado da caixa, tocando-a com a mão por um bom tempo.


Essa hipersensibilidade auditiva nos deixava preocupados, era difícil tirá-la deste estado de descontrole. Quando acontecia em casa, desligávamos a música para ela se acalmar. Fomos trabalhando essas situações de som alto aos poucos, sabíamos da importância dela conseguir se autorregular nestas situações para uma melhor socialização. Afinal, onde não possui poluição sonora em nosso cotidiano?

Esta hipersensibilidade nos mostrou a importância que o som, o ritmo, a harmonia e a melodia possuem em nossa percepção. Em excesso nos assusta, nos incomoda, desconcentra, mas, na medida certa, nos acalma e comunica de uma forma muito forte.

Quando começou a se acalmar, a música ajudou a Marina a soltar seus primeiros sons. Ela  foi tentando entoar as melodias que ouvia, o que a fez querer “falar” e soltar mais palavras.

Começamos aulas de musicalização há mais ou menos 3 anos. Seu professor, Alexandre Pilon, possui uma sensibilidade e uma didática muito especial. Não apenas pelas particularidades da Marina, mas também pela idade dela, por não conseguir se concentrar a aula toda em uma única atividade. Ele vai sentindo seus interesses e vai guiando a aula para que ela não perca o foco. Algumas vezes vai para o piano, outras para a bateria e outras vezes desenha e mostra os ritmos e as notas em um papel. (Neste caso, mais uma vez a imagem fortalece a comunicação).

Sua percepção corporal aumentou muito com a musicalização, o que a ajudou também em vários momentos cotidianos e na sua coordenação motora.

O ritmo é a primeira coisa que percebemos na música, é muito legal poder trabalhar com instrumentos de percussão ou mesmo percussão corporal, como bater palma, batucar no corpo ou mesmo emitir um som com a boca na batida da música.

Ela foi percebendo as intensidades dos sons que fazia de acordo com a força que batia, assim como a intensidade dos sons que emitia com a boca. Isso foi ajudando a perceber sua voz, seu corpo, o ambiente.

Em casa, sempre que ela está ouvindo alguma música que gosta, tentamos incentivá-la a cantar ou batucar em algo ou bater o pé no ritmo. Isso faz com que ela se integre um pouco mais ao que está ouvindo, participando de forma menos passiva. Essa atitude tem refletido também em outros momentos, fazendo com que ela tenha mais iniciativa e percepção.

A música, sem dúvida, é uma de suas paixões que aproveitamos para usar a seu favor, enriquecendo ainda mais seu repertório.

Às vezes desafinamos, tocamos fora do ritmo por não prestarmos muita atenção na melodia que está a nossa volta. A nossa rotina nos faz acelerar e sair do tom por muitas vezes. Mas, quando prestamos atenção em nosso ritmo interno e acertamos o tom, entramos em uma harmonia forte e podemos compor canções únicas e de uma força incrível.

Seguimos sempre tentando achar o ritmo de cada dia, nos afinando na medida do possível e vez ou outra paramos para “tocar a mesma música juntos”.

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