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Comunicação: a importância do que não é dito


Minha irmã mais nova possui paralisia cerebral, o que afeta sua coordenação motora e a fala, mas seu cognitivo é intacto. Ela é apenas dois anos mais nova que eu e pude acompanhar durante minha vida toda as diferentes fases de suas dificuldades e as dificuldades que as outras pessoas tinham em se comunicar com ela. E também acompanhei como minha mãe e ela tentavam solucionar esta equação buscando métodos e opiniões profissionais.


    Pela sua dificuldade na fala, muitas pessoas achavam que ela também não compreendia e não tinha consciência das coisas, dificilmente perguntavam algo para ela. Ao invés disso, perguntavam à minha mãe, mesmo quando estava ao lado dela, ou simplesmente tratavam a situação com uma certa infantilidade duvidando que poderia compreender.


    Parte disto que minha mãe e minha irmã passam eu também vejo nos relacionamentos com a Marina. Ela possui dificuldade em se comunicar e muitos também acreditam que ela tenha dificuldades na compreensão.

Esta dúvida em relação ao outro por si só já causa ruído em qualquer comunicação. Em nosso dia a dia, no trabalho ou nas relações pessoais, a comunicação que observamos dificilmente possui uma clareza.


Afinal, qual de nós consegue uma comunicação clara? 


Acredito que esta falta de clareza e confusões que acontecem na comunicação se devem à falta de interpretação. Este questionamento sempre me ocorre:


“Todo erro está na interpretação”.


Não apenas na interpretação que estamos tendo enquanto o outro fala. Esta interpretação começa em nosso íntimo.


Sabemos nos interpretar? Sabemos reconhecer nossa própria história? Conseguimos distinguir entre o que queremos realmente dizer e o que estamos dizendo inconscientemente?


    O autoconhecimento nos ajuda a entender os outros e se autoconhecer é um trabalho muito difícil. Nossos sentidos estão apontados para perceber o que ocorre à nossa volta e poucas vezes voltamos o olhar para nós mesmos. 


    Não nos comunicamos apenas com as palavras. Existe um gesto, um olhar, um ambiente, um tom de voz, um jogo de quadril e outras vibrações quase imperceptíveis que fazem parte deste diálogo. Sendo assim, não compreendemos o outro apenas ouvindo ou apenas olhando.


    Essa distância física entre quem se comunica possui grande importância. Não é à toa que uma conversa por whatsapp muitas vezes não funciona. (Mas é claro que existem momentos em que este recurso facilita muito).


    Um toque de pele pode falar muita coisa… temos que saber como tocar o outro. Um tom de voz errado pode atingir uma outra pessoa de maneira totalmente inversa da que gostaríamos.


    Então, quando vamos falar algo, temos que prestar muita atenção ao que queremos dizer e as outras vozes internas que gostariam de sair de nosso íntimo e que não fazem parte deste contexto.


    E como fazemos isso? Conhecendo-nos cada vez mais. Ouvindo-nos mais. Percebendo-nos mais… E assim, podemos compreender melhor o outro, mesmo no caso em que o outro não saiba falar muito bem. 


Quão autistas somos nós? Este é um outro questionamento que tenho constantemente. Estou me conhecendo melhor e, consequentemente, conhecendo e me comunicando melhor com minha filha, conhecendo e me comunicando melhor com outras pessoas.


    Gael, meu filho mais novo, tem apenas 2 anos e já se comunica muito bem com a Marina mesmo tendo um vocabulário e um raciocínio ainda muito imaturo. Acredito até que ele se comunica com ela, muitas vezes, melhor do que eu.

    

Hoje fico feliz quando vou contar histórias para a Marina dormir e posso ficar fazendo carinho em suas costas. Até pouco tempo atrás, este toque, este carinho, era sentido como algo incômodo por ela, mesmo que no fundo gostasse, se esquivava. Este foi um dos ganhos com a vinda do Gael. Este foi um dos ganhos ao conhecer-nos melhor e percebermos a intenção do toque e como fazê-lo.


    Muitas vezes nos comunicamos também no silêncio.


    Este é um assunto complexo, o qual demandaria uma boa análise e conhecimento para aborda-lo, mas minha intenção foi apenas de estimular uma reflexão. É um convite para olhar menos para fora e mais para dentro.


A imagem acima ilustra um momento comum durante o almoço. Mesmo em silêncio, muitas vezes ela fica escrevendo com o dedo em meu braço ou na mesa.

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