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Crescemos com a diferença

Atualizado: Set 13


Certo dia, durante um passeio na praça, uma menina perguntou sobre a Marina:

- "O que ela tem na cabeça?"

Na hora eu olhei achando que poderia ser um machucado ou sujeira e então vi que não tinha nada e respondi:

- "Ah, é a presilha do cabelo dela".

- "Não, tio. É que a gente chama e ela não escuta".

Juro que eu não havia entendido a pergunta mas depois eu respondi:

- "Ela é autista. Ela escuta sim mas tem uma forma diferente de brincar e se comunicar e ela está muito feliz brincando com vocês."


É extremamente importante quando uma criança pergunta. Dei uma resposta mais simples neste momento mas creio que o suficiente para uma criança daquela idade e naquele momento específico. 

A curiosidade sempre surge quando nos deparamos com algo diferente do nosso cotidiano e a forma como respondemos ou apresentamos estas diferenças para uma criança é algo ainda mais importante.


Porém, nem sempre as crianças (ou adultos) perguntam. Já aconteceu algumas vezes da Marina chegar muito feliz para brincar com algumas crianças e de repente surge a frase: "Vamos correr dela!". Marina não percebe e sai correndo atrás, brincando da maneira dela e muito alegre, já que adora correr. Mas para nós, pais, isso magoa e, sempre que possível, tentamos interferir de maneira positiva na situação quando vemos que cabe uma interferência nossa.


Isso já ocorreu também em ambientes familiares, com amigos conhecidos ou não. É algo que já vivenciei também com minha irmã mais nova que possui paralisia cerebral.


Não estamos nos vitimizando. Isso ocorre entre as diferenças raciais, culturais, religiosas, de gênero entre tantas outras. Possuímos uma curiosidade natural e sempre questionamos quando encontramos algo novo. 


Creio que falar sobre a diferença é demonstrar uma vontade de crescer. Devemos respeitar esses momentos para estabelecermos um diálogo inteligente e construtivo.


Perguntar o quê, por que ou como é realmente importante. Crescemos com esses questionamentos. O ruim é quando percebemos situações vindas de um adulto, como: "Não pergunta, não olha, disfarça, pede desculpa por ter falado isso”. 


Precisamos conversar com nossos filhos sobre as diferenças, principalmente sobre pessoas "diferentes" das características da nossa família e do nosso círculo de amizades. Não falamos só em relação às pessoas com deficiências, mas também em relação à cor de pele, às crenças, ao gênero, à estética corporal, ao local de origem, à diversidade familiar.


E que essas conversas sejam no sentido de explicarmos que o mundo é feito de todos os tipos de pessoas e que as diferenças existem, são reais, e que isto é algo muito positivo.


O novo surge da diferença. Aprendemos com um olhar diferente do nosso. É uma soma.


Entendemos que não falar sobre esses assuntos pode fazer com que essas diferenças tornem-se invisíveis.  A criança pode não perceber o diferente, ou mesmo se desinteressar em conhecer e aprender com o novo.

Falar sobre as diferenças vai além, faz a criança começar a entender os mistérios do outro e também a compreender a si mesmo.


O diálogo é sempre a melhor saída. Falar sobre racismo, diversidade, deficiências, esteriótipos, diferentes religiões contribui para que nossos filhos fiquem mais atentos a essas questões e se esforcem para não perpetuarem os preconceitos. 


Nós, pais, precisamos observar e atentar sobre palavras que, às vezes, usamos e nem percebemos que vêm do enraizamento dessa nossa cultura preconceituosa a qual somos inseridos. Exemplos: "Baleia", "neguinho", "galinha'’, "viado", "branquelo", "sapata", "nortista", "de cabelo esquisito".

Repensemos principalmente sobre nossas atitudes, que mesmo sendo sutis ou não intencionais, como certos questionamentos, comentários e piadas preconceituosas, podem fazer com que nossos filhos achem natural essas posturas.


Seguem algumas sugestões sobre atitudes e formas de adentrar ao tema das diferenças.


A primeira sugestão que parece óbvia é questionar a si mesmo. Quais são as suas diferenças? Já parou para pensar nisso? Para que algo novo surja, é preciso o encontro com algo diferente.


Próxima sugestão: Tenha diálogos de acordo com a maturidade de desenvolvimento de cada faixa etária. Não vai adiantar muito você falar, por exemplo, sobre escravidão com uma criança de 2 anos.


Para os bebês e crianças menores de 2 anos, certas atitudes nossas, enquanto pais, servem como um bom exemplo de desmistificar o preconceito. Por exemplo:

Estão brincando numa área coletiva (parquinho, SESCs, aniversários). Aproximem-se dos pares diferentes das características da sua família (cor, sotaque, características físicas, deficientes). Mostre aos seus filhos que a diferença é algo natural. Dessa forma, a empatia também vai sendo estabelecida. 


Para as crianças por volta dos 3 ou 4 anos, observar as diferenças entre os pares é natural. Se nossos filhos vêm falar sobre algum amigo que tem a cor de pele diferente da nossa, ou que apresenta obesidade ou uma certa deficiência, normalize a conversa, faz parte da compreensão. Entretanto, responda aos questionamentos de forma direta e calma. Essas descobertas deles podem ser uma porta aberta para explicarmos sobre as diferenças que notaram, o que significam e o que não significam. Converse de maneira que eles consigam entender dentro da sua pouca idade.


Ex.: "O colega não fala como você, ele pode ter nascido com uma certa dificuldade, mas isso não quer dizer que ele não entenda e que não pode interagir de outras formas. Todos nós somos diferentes uns dos outros."


Devemos incentivar nossos filhos a terem um grupo diversificado de amigos (de diferentes raças, portadores de deficiência, de diferentes religiões, de diferentes classes sociais) no intuito de compreenderem que as diferenças não nos tornam melhores ou piores, apenas diferentes. É na convivência que eles poderão se colocar no lugar do outro e entenderem a importância da tolerância e do respeito.


Na escola, também é importante ter amigos diferentes na sala de aula. Não tenha receio de que seu filho possa ser prejudicado por causa de uma atenção a mais dada a outro coleguinha. As duas partes são beneficiadas com esse convívio. Aprendem a perceber melhor o outro, a ter um olhar cuidadoso, conseguem verbalizar sentimentos por ter aprendido com a dificuldade do outro.


Em casa, para todas as idades, é interessante expor nossos filhos à diversidade, seja em livros, obras de arte, programas de TV, comidas ou até mesmo quanto as pessoas que convidamos para visitar nossa casa.


Para as crianças maiores, pré ou adolescentes, podemos perguntar o que eles pensam sobre o assunto e enfatizar a importância da diversidade. Eles também já podem incentivar o ativismo na escola e em seu grupo de amigos, assim como ter uma visão crítica quando se trata de mídia. 


Sejamos pontes de uma sociedade mais igualitária! Que possamos fazer parte dessas mudanças, que apesar de ainda termos um caminho bem longo pela frente, possamos tentar desconstruir o preconceito e criar filhos empáticos e respeitosos para com os outros!




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