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Alimentação e Seletividade



Marina, hoje com 9 anos, não apresenta seletividade alimentar, porém nem sempre foi assim. Apenas de uns 4 anos pra cá que começamos a conseguir essas vitórias. Até aí, não comia nada em temperatura gelada ou com textura mole (ou que mudava de consistência quando entrava na boca). Ex.: gelatina, melão, sorvete.


Notávamos, dentro da nossa pouca experiência de pais de primeira viagem, que se tratava mais de dificuldades sensoriais que de alterações fisiológicas. De forma simplista, parecia sentir uma certa invasão, medo do novo, uma grande resistência.


Quanto aos atrasos fisiológicos, ela nunca engasgou ou vomitou depois de comer algo, nunca teve refluxo ou outros problemas digestórios aparentes. Porém, desde bebê, apresentava uma certa hipotonia dos músculos faciais. A língua estava sempre pra fora da boca e a fala não estava dentro da normalidade para a faixa etária, ou seja, a maturação dos movimentos da língua estava atrasada, o que também prejudicava a mastigação.


Os exercícios de fono sempre foram muito difíceis de serem atendidos por ela, com o passar do tempo foram sendo um pouquinho mais compreendidos. Qualquer material que a fono tentava encostar no rosto a tornava arredia. Ficava num cantinho do consultório e só saía após ter algum reforçador positivo, como brincar com um jogo, ler um livro ou mesmo dizer que íamos pra casa.


O transtorno do processamento sensorial está presente até hoje. Marina ainda tem hipersensibilidade tátil. É sempre difícil começar a usar sapatos novos ou encostar em qualquer coisa que ela acha que grude, uma certa "transferência sensorial" (acha que gruda, mas por diversas vezes, isso nem acontece). Não brinca de massinha, não encosta em cola, durex, adesivos, imãs, não pega alimento com a mão que possa dar a sensação de "grude" (nem mesmo chocolate, que ela é apaixonada).


As sessões de terapia ocupacional ajudam muito, apesar dessa evolução acontecer em passos de formiguinha. A nossa paciência é fundamental, assim como a atenção positiva, ou seja, dar valor às vitórias e não colocar as dificuldades acima dos ganhos.


Bom, voltando à alimentação, a aceitação dos alimentos aversivos pela Marina começou a acontecer, ao nosso ver, com uma mudança de direcionamento de postura dela, uma certa maturidade e mais flexibilidade às novidades. E achamos que isso tenha acontecido também por mudanças em nosso comportamento quanto à forma de nos portar. Ao achar que estávamos a protegendo e a ajudando usando a evitação, na verdade estávamos nos auto-sabotando. Começamos a dar mais voz a ela, protagonizá-la nas diversas situações do dia-a-dia. (Foi uma via de mão-dupla)


Observávamos suas dificuldades de oralidade/alimentação e questionávamos os possíveis porquês!


O que faltava? O que poderíamos melhorar em nós para que pudéssemos auxiliar (afinal, somos parte de todo o processo)? Nosso ambiente estava acolhedor?  A forma como estávamos lidando com suas dificuldades estava a estagnando no sentido de ter mais ou menos potência? 


Toda evolução primeiramente precisa partir do interno e não do externo, mas um ambiente suficientemente bom é necessário para permitir o desenvolvimento do sujeito. Começamos a observar atitudes nossas que a deixavam num papel de "diferente dos demais pares", de "não-autônoma" e começamos a nos portar a ela como sendo a protagonista da história.


Um exemplo dessa mudança de atitude foi de que Marina, com 6 anos, nunca tinha ido sozinha a um aniversário dos amiguinhos. Tínhamos medo dela não conseguir expressar o que queria, afinal não falava de forma funcional; poderia entrar em crise de ansiedade; certamente não iria comer, pois não ia pegar nada por causa da aversão ao toque ou por causa da coordenação motora.


Resumindo, em muita situações, nossos medos a colocavam num papel menor pelas suas dificuldades. Mas e toda a parte boa que poderia viver ali na festinha? Nossos medos e nossa intenção de protegê-la imperavam! Bobagem nossa...

Começamos então a levá-la aos aniversários e conversávamos com os responsáveis sobre a dificuldade de fala/coordenação e que a supervisionassem, ajudando, caso necessário.


Esse foi só um exemplo de situações em que demos autonomia a ela!  

A nossa superproteção, claro, que querendo ajudar, pode ter favorecido a manutenção dos problemas em relação aos alimentos, evitávamos o confronto com as situações "ameaçadoras", como as festinhas.


Propomos dar novo significado de identidade à Marina, começando por tratar nossas angústias e medos. Partimos para um posicionamento de enfrentamento e protagonização.


Nos momentos das refeições, tentávamos fazê-las com tranquilidade, focados (sem outros estímulos que desviassem a atenção dela, como TV, celular, brinquedo). Íamos explicando o que era a mastigação, o que era engolir o alimento e todo o processo desde a entrada dele na boca até a saída pelo xixi ou cocô. Essas explicações atraíam muito a atenção dela, sempre gostou de saber os porquês de tudo!


Muitas vezes, mesmo sem ela querer experimentar determinado alimento, perguntávamos o que a incomodava, se era o cheiro, se era o visual, se era a cor, se era alguma outra sensação. Mesmo sem saber definir ao certo e expressar bem, em muitas situações pedíamos pra ela passar a mão nas frutas in natura, pedíamos a ajuda dela na hora da preparação da comida, "desfazíamos" o sorvete pra ver seu interesse em experimentar por ter alterado a textura.


Não somos terapeutas ocupacionais ou fonoaudiólogos, mas somos co-terapeutas. Precisamos ter participação ativa no processo de mudança dos nossos filhos, apenas acreditar na terapia é algo muito passivo, precisamos potenciar os avanços e dar vez e voz a eles. Eles precisam ser o sujeito das suas histórias, e  como já expressei acima, a mudança começa de dentro pra fora. 


Perguntávamos à Marina o que estava com vontade de experimentar quando íamos juntos às compras. Algumas vezes (coisa rara de acontecer), ela pedia algo pela curiosidade do formato ou da cor. Preparávamos juntos o que havia escolhido e servíamos. Nada foi (é) mágico ou de uma hora pra outra. As vitórias, assim como em qualquer ser humano, são feitas de avanços e recuos. É preciso repetir as experiências para elaborá-las!!! É preciso ter paciência e não desistir!


O nosso comportamento em fazê-la perceber o seu papel, ao nosso modo de revisitar esse quesito, foi muito importante. Não pressionávamos, nem puníamos se ela não quisesse comer; permitíamos que ela escolhesse os alimentos que tinha na mesa, sempre com o trabalho sensorial, perguntando a ela sobre o que sentia em relação ao cheiro, ao aspecto visual, ao toque, quando possível, à textura; encorajávamos os progressos. "Experimenta, se não gostar, tira da boca!". "Você vai gostar, afinal, o gosto disso, parece com aquilo que você gosta..."


Aos poucos, ela começou a melhorar sua seletividade alimentar. Começou a utilizar os talheres sozinha, ao seu modo; a escolher os cardápios do que iríamos fazer ou pedir; a dizer que queria ir às festinhas. 


Comemorávamos cada nova etapa. Uma gelatina que foi até o fim, a mordida em um melão, o primeiro potinho de sorvete, o brigadeiro pego com a mão, os sushis degustados com alegria, a ida à festinha e toda a sua explicação de que havia comido um cachorro quente ou um (ou vários) brigadeiros, ou ainda que tinha ficado com vontade mas não soube pedir pra alguém lhe ajudar. A comunicação também está melhorando! Está apresentando mais voz, está mais potente!


Seguimos na caminhada, tentando proporcionar a integralidade da Marina, cuidando, acolhendo e agradecendo cada vitória. Seguimos mediando os processos que ainda são difíceis, como a desorganização tátil, também com a ajuda do Gael, que é um par que tem feito muita diferença no desenvolvimento da irmãzinha. Ele, com sua espontaneidade de criança, coloca massinha na mão dela, mesmo ela se esquivando, diz que "não vai grudar" e aos poucos ela vai entrando na brincadeira. Os adesivos e a cola ainda são mais fortes que ela, mas a palavra AINDA é nossa aliada. Com amorosidade, paciência e protagonização, logo conseguiremos atravessar mais esse obstáculo.



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